PARTE 2

Valeria não dormiu nessa noite na cidade. As 8 crianças se amontoaram no chão do quarto, enroladas em cobertores emprestados por Jacinta, e mesmo assim nenhuma descansou de verdade. Inês chorava dormindo, os gêmeos acordavam cada vez que rangia uma tábua, e Mateo ficava sentado junto à porta, com uma faca enferrujada na mão, criança demais para carregar esse medo e muito ferido para soltar. Valeria tinha apenas 47 pesos, uma mala pobre e um papel que dizia que vinha casar com um homem que talvez já estivesse morto. Ao amanhecer, o xerife da cidade quis separar as crianças e mandá-las para famílias diferentes. Disse que uma mulher sozinha não podia cuidar de 8 órfãos, muito menos uma forasteira sem terra. Mas ele disse isso na frente de Mateo, e Valeria viu o garoto apertar os punhos como se a família fosse arrancada de novo. Então ele entendeu que não podia permitir isso. Julian tinha-a chamado companheira em suas cartas, e embora não tenha chegado a ser seu marido, sua promessa ainda estava viva nessas crianças. Jacinta implorou-lhe prudência; Tomás disse-lhe que os homens que queimaram o rancho podiam voltar. Mas Valeria foi ao escritório agrícola e perguntou se uma mulher solteira poderia reclamar um terreno abandonado. O funcionário gozou no início. Depois, ao ver as cinzas no seu vestido e 8 crianças esperando lá fora, ele passou-lhe os papéis. Valeria assinou com a mão firme. Eles voltariam para o rancho. Não porque fosse seguro, mas porque era a única coisa que podia se tornar um lar. A notícia correu rápido, e com ela chegaram os comentários venenosos. No mercado disseram que Valeria queria ficar com uma terra que não era dela. Na igreja, uma senhora murmurou que nenhuma mulher decente juntava tantas crianças alheias debaixo do seu teto. Pior ainda, apareceu Evaristo Luján, um criador rico, dono de meia região, acompanhado de 3 homens armados. Ele alegou que Julian lhe devia dinheiro e que o rancho, queimado ou não, lhe pertencia. Quando Valeria mostrou os papéis, Evaristo sorriu como quem olha para uma formiga. Nessa tarde, enquanto Tomás ajudava a carregar ferramentas usadas em uma carroça, Mateo confessou que os homens que mataram seus pais usavam lenços vermelhos no pescoço, como os de Evaristo. Ele também disse que seu pai não morreu por roubar nem por dívida, mas porque tinha escondido algo de Julian antes do ataque. Rebecca lembrou que Julian visitou seus pais 1 noite antes do incêndio com uma caixa enrolada em cobertor. Lucia, que sabia costurar, disse que a mãe lhe tinha dito que se algo acontecesse, eles procurariam a “mulher de Puebla”. Valeria sentiu que as cartas de Julian não eram mais palavras de carinho: eram pistas. Eles voltaram para o rancho com medo, mas também com uma nova raiva. Dormiram no porão de raízes, usaram pedras queimadas para levantar fogão e resgataram pregos tortos entre as ruínas. Mateo caçou com pequenas armadilhas; Rebeca encontrou quelites, tunas e nozes; Lucia remendou roupas; Valéria curou feridas e ensinou os pequenos a rezar sem tremer. Mas na quarta noite, quando o vento apagou quase todas as brasas, Inês acordou gritando. Lá fora, sobre a mesquite onde os pais estavam enterrados, pendurava um lenço vermelho. Abaixo, pregado com uma faca, havia uma mensagem: “Entregue-nos a caixa ou queimamos vivos aos 8”. Então Mateo, pálido como cal, levou Valeria para o velho poço seco e mostrou-lhe uma pedra solta. Atrás estava a caixa de Julian, intacta, e lá dentro não havia dinheiro, mas escrituras, recibos e um caderno com nomes de homens do povo, incluindo o xerife…

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